Segunda-feira, Novembro 08, 2004

Na barbearia os homens conversavam. Do rádio, estratégias e hipóteses sobre o jogo eram lançadas ao ritmo da tesoura que pairava, certeira e determinada, sobre mim. Um deles impacientou-se de repente, "um escândalo, uma vergonha!, ontem no 'Quem quer ser milionário?', um juíz que não sabia qual era o rio que desagua na Figueira da Foz!".

Como é que um juíz, que é um juíz, não sabe uma coisa tão elementar que até o homem, que é apenas um homem, sabia? "Como é possível", continuava o homem, "que um juíz consiga fazer o seu trabalho, decidir sobre as vidas das pessoas, se não sabe que é o Mondego que desagua na Figueira?".

Para os mais velhos, é impensável chegar-se a algum lado sem se ter os conhecimentos básicos que eles aprenderam, ao ritmo de réguadas, nos bancos da escola primária, debaixo do olhar ameaçador do retrato de Salazar pendurado na parede. Para eles, o conhecimento podia muito bem esgotar-se por aí, porque foi assim que eles foram ensinados, ao som dos slogans do Estado Novo (o meu favorito é "se soubesses o que custa mandar, preferias obedecer toda a vida"), inscritos até nos manuais escolares. Os rios, as províncias, as capitais de distrito, os Descobrimentos, o Afonso Henriques, o Viriato. Quem não sabe isto, que é tudo o que lhes foi ensinado, não pode saber nada.

A indignação teve eco. Todos os presentes, da mesma geração do que ele, concordaram, escandalizaram-se, abanaram a cabeça. "Por isso é que este país não anda para a frente". So faltou o clássico "no tempo do Salazar é que era bom".

A mim apeteceu-me dizer que, apesar de ser estranho que um juíz não saiba os rios de Portugal, seria muito pior que o mesmo juíz não conhecesse a lei. Ou um engenheiro civil que não saiba o que é o betão, ou um economista que não soubesse o que é o mercado, ou um canalizador que não soubesse montar uma torneira. Ou todas aquelas profissões que eles gostariam de ter tido, mas que esse país retrógado, tiranizado por gente retrógada, não lhes conseguiu proporcionar.

Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Tentei... não consegui.
Depois de uma tarde em busca de uma pontinha daquilo que nos une (ou não), o único gesto de afecto que presenciei, foi o de um beijo orgulhoso de um pai que acabava de comprar uma qualquer peça de roupa à filha.
E é interessante que este único gesto de carinho tenha tido na sua origem uma transacção comercial.
É que parece ser o único factor que proporciona qualquer interacção social.
Das cinco pessoas com quem falei, três queriam vender-me haxixe, as outras duas queriam falar-me sobre o Midas Prestige, o clube que vai mudar o poder de compra dos portugueses (procurando no google, o segundo link que aparece imediatamente a seguir à pagina oficial do clube inclui na sua descrição a palavra burla).
Quanto ao desafio, acho que terei que tentar outra vez para provar que não vivemos simplesmente uns ao lado dos outros.
Talvez noutro sítio.


Quinta-feira, Outubro 14, 2004

Interessa-me esta discussão, a de saber se realmente vivemos em sociedade. Ou melhor, se estamos uns com os outros, uns pelos outros, uns contra os outros, ou apenas uns ao lado dos outros.


Essa imagem desoladora, essa postura quase trágica dessas duas mulheres, comprometidas consigo mesmas, com as suas desgraças e com as suas próprias derrotas, como se mais nada existisse à sua volta, é inequivocamente pela última hipótese: a de que vivemos apenas uns ao lados dos outros.

Mas proponho-te um desafio. O de tentar provar que as outras hipóteses (e outras de que te lembres) poderão também ser válidas.



Quinta-feira, Outubro 07, 2004

as cidades têm o dom fantástico de reduzir a existência de qualquer um, em qualquer lado.

so many people, and yet...



Sexta-feira, Outubro 01, 2004

Cenário

Gosto desses prédios aí atrás, parecem pintados, como se fossem um cenário de um filme que esgotou o orçamento.

E gosto de ver como os prédios, à noite, têm essa capacidade única de reduzir a existência daqueles que neles habitam, ou a um simples ponto de luz, ou a um indecifrável quadrado negro.

Segunda-feira, Setembro 27, 2004